Armindo Trevisan

ARMINDO TREVISAN

(Santa Maria, 1933)

 A formação do poeta Armindo Trevisan é tributária do ambiente sacro-religioso de seminário, da Teologia e da Filosofia, área na qual doutorou-se na Suíça no ano de 1963. No ano seguinte, começa sua carreira como professor universitário e até 1986 ministra aulas de Ética da Filosofia, História da Arte e Estética, História da Filosofia Medieval, Contemporânea e Doutrina Social Cristã nas cidades de Santa Maria, Caxias do Sul e Porto Alegre. Em 1970 pede dispensa dos votos religiosos, fato que alterará significativamente a essência de sua poesia. Toda a obra do autor é marcada pelo cunho religioso de sua educação. Esse rompimento direto com a vida religiosa deixou aflorar nas suas obras todo o erotismo do amor carnal. Desejo, paixão, sexo passam a ser transcritos ora em doces linhas cheias de ternura, ora em instintivos versos ousados e picantes, mas sem, em momento algum, cair no profano ou depravado. Crítica social e questionamentos à ordem política imposta  também são temas abordados em sua produção, mas igualmente penetrados por um toque de fervor erótico. Entretanto, é a religiosidade que permeia toda a sua obra, mesmo em seus versos mais sensuais. O criticismo social e político, entrelaçado com um sensual lirismo religioso, fez de sua obra merecedora de vários prêmios. Entre eles, o Prêmio Gonçalves Dias da União Brasileira de Escritores por seu primeiro livro de poesias, “A surpresa do ser”, publicado em 1967 e em cuja comissão julgadora se incluíam Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Cassiano Ricardo: o Prêmio Nacional de Brasília pelo livro “O abajur de Píndaro” em 1972 e o Prêmio APLUB de Literatura 1996-1997 pelo livro “A dança do fogo”. Homenagem ao poeta gaúcho também foi prestada quando patrono da Feira do Livro de Porto Alegre em 2001. Mas, além de poesias, também escreveu alguns ensaios ao longo de sua trajetória, bem como contribuiu com alguns jornais, entre 1967 e 1982, em Brasília (DF), Petrópolis (RJ), Porto Alegre (RS), São Paulo, Rio de Janeiro e Portugal, bem como com algumas revistas em ambos os países. Este poeta e ensaísta tem obras traduzidas em várias línguas, principalmente alemão, italiano, espanhol e inglês, rompendo as fronteiras geográficas da literatura rio-grandense e brasileira.

TÍTULOS

POESIA

A surpresa do ser – Rio de Janeiro, 1967

A imploração do nada – Porto Alegre, 1971

Funilaria no ar – Porto Alegre, 1973

Corpo a corpo – Lisboa, 1973

O abajur de Píndaro/ A fabricação do real – São Paulo, 1975

Em pele e osso – Porto Alegre, 1977

O ferreiro harmonioso – Porto Alegre, 1978

O rumor do sangue – Porto Alegre, 1979

A mesa do silêncio – Porto Alegre, 1982

O moinho de Deus – Caxias do Sul, 1985

Antologia poética – Porto Alegre, 1986

A dança do fogo – Porto Alegre, 1995

Os olhos da noite – Porto Alegre, 1997

O canto das criaturas – Porto Alegre, 1998

Orações para o novo milênio – Porto Alegre, 1999

ENSAIOS

Essai sur le problème de la création chez Bérgson – Fribourg, Suíça, 1963

A escultura dos sete povos – Porto Alegre, 1978

Os sete povos das Missões – Série: Raízes gaúchas, III volume – Porto Alegre, 1980

Escultores contemporâneos do Rio Grande do Sul – Porto Alegre, 1982

Os sete povos das Missões – Porto Alegre, 1984

A dança do sozinho – uma análise da arte abstrata – São Paulo, 1988

Como apreciar a arte – do saber ao sabor: uma síntese possível – Porto Alegre, 1990

Reflexões sobre a poesia – Porto Alegre, 1993

A sombra luminosa – ensaios de estética cristã – Petrópolis, 1995

A poesia: uma iniciação à leitura poética – Porto Alegre,  2000

REFERÊNCIAS CRÍTICAS

 Segundo Regina Zilberman, em seu trabalho crítico, “(…) Armindo Trevisan (…) orienta seus versos para uma temática menos individualista e mais filosófica, adere à estética moderna, mas não chega a aderir à vanguarda concretista que marcou por algum tempo a produção literária de autores do centro e do norte do País. A preocupação, antes reflexiva que sentimental, transparece nos poemas iniciais: A Surpresa do Ser está centralizado num eu-lírico cuja problemática maior decorre da busca da existência. Como indica o título do livro, aspira ao ser, significando com isto sua realização ao longo do tempo. (…) A crítica social comparece na maior parte dos versos do livro O Ferreiro Harmonioso, que questiona os valores consumistas da sociedade moderna, (…) e expõe o drama do homem dirigido a uma atividade mecanizada e insatisfatória (…). Assim, configura-se uma trajetória que não abdica da intromissão pessoal na problemática desenvolvida, mas renuncia em grande parte ao emprego da primeira pessoa. Este fato caracteriza os limites que polarizam sua obra: o voltar-se ao mundo e ao presente, buscando sua essência e desvelando as distorções da sociedade que afastam o indivíduo da verdade e de si mesmo; e o retorno à entidade do poeta, através da reflexão sobre seu papel em tais circunstâncias, encarregado que é do sacerdócio criador.”

                                                          Zilberman, Regina [1980]. A poesia contemporânea. In: ___. A literatura no Rio Grande do Sul. p.161, p.163-164, p.166.

SELETA

Uma Doença Chamada Homem

Se dividirmos o corpo, se na unidade
as coisas se arranjarem, à revelia de outros corpos,
se de nós a inteligência partir para fora
e de fora vier até nós; se algo assim
com Kipling não nos obrigar à capitulação
e isto for complicado porque em política

repressão nada significa e as palavras constituem
o que elas constituiriam se pensar fosse comer;
se nem na comida conseguimos unanimidade
mas antes uma laranja é fruto
de divisão; se pensamos que ser é ser indivíduo,
trabalhar com os outros, fornicar com os outros;
se a colisão de bocas na treva
não nos atar as línguas; se
por acaso a vida fosse um abuso

de força a esta atavicamente jorrasse
do bico de um pássaro, do furo de uma baleia;
se cada um de nós de repente se dispusesse
a inverter a evolução, a recomeçar outro movimento.

Que aconteceria? Seríamos
inúteis durante algum tempo. Não saberíamos
manipular um motor, estender uma roupa,
ou juntar as mãos. Seríamos

inúteis. Mas dessa inutilidade
não brotaria mais sentido? Que
aconteceria? Alinhar-nos-íamos entre
os gansos? Que
se passaria com a consciência? Oh! o esforço
de se beijar um mamilo, de
se dizer absolutamente porque somos.
Um esforço do qual
cada pessoa emergeria jovem,
um gesto feito quando chega a notícia.
Seríamos inúteis. Inúteis sem remorso.
Extraviados na liberdade de ignorar

a própria morte. Em vez disso sabemos como as coisas
caminham, temos noções exatas acerca de um
fusível, pagamos nossas dívidas,
e saboreamos a sensação

de morrermos muito antes do tempo.

In: TREVISAN, Armindo. O abajur de PíndaroA fabricação do real. Il. Almada Negreiros. São Paulo: Quíron; Brasília: INL, 1975. (Sélesis, 4). Poema integrante da série O Abajur de Píndaro.